
"Tira o glúten e a lactose que você desincha." Talvez você já tenha ouvido isso de uma amiga, de um influenciador ou até de um profissional. Às vezes funciona, às vezes não muda nada, e muitas vezes a pessoa corta sem saber por que está cortando.
Neste artigo, eu explico a diferença entre alergia, intolerância e sensibilidade, por que você não precisa ter alergia para um alimento te fazer mal, se cortar emagrece e quando a retirada realmente faz sentido.
A ideia não é defender nem condenar esses alimentos, e sim ajudar você a entender quando a retirada é necessária, quando pode ajudar e quando só deixa a vida mais difícil sem trazer benefício.
É uma reação autoimune ao glúten que lesa o intestino delgado. É investigada com exame de sangue, que mede anticorpos, e biópsia, feitos ainda comendo glúten. O tratamento é a retirada total e definitiva do glúten.
É uma reação do sistema imune à proteína do alimento. Pode causar sintomas de pele, respiratórios e intestinais, às vezes graves. A avaliação é feita com o alergista.
Acontece quando existe pouca enzima lactase para digerir o açúcar do leite. A lactose não digerida fermenta no intestino e causa gases, inchaço e diarreia. A investigação é feita pela história clínica, pelo teste respiratório ou pelo teste de tolerância.
São sintomas com o consumo de glúten em pessoas que não são celíacas nem alérgicas. O diagnóstico é feito pela exclusão das outras causas e por um teste orientado.
Um alerta importante: se existe suspeita de doença celíaca, não tire o glúten antes de fazer os exames, porque a retirada pode deixar o resultado falsamente negativo. A diretriz do American College of Gastroenterology reforça esse cuidado.
Alguns sintomas indicam que vale conversar com o médico antes de mexer na alimentação:
• Diarreia crônica ou intestino muito desregulado.
• Perda de peso sem explicação.
• Anemia por falta de ferro que não melhora com suplementação.
• Cansaço intenso e persistente.
• Manchas ou bolhas na pele que coçam muito.
• Histórico de doença celíaca na família.
• Outras doenças autoimunes, como Hashimoto ou diabetes tipo 1.
Esses sinais aumentam a suspeita de doença celíaca e precisam de investigação com o glúten ainda presente na alimentação.
Muita gente testa negativo para alergia e continua passando mal, e isso não quer dizer que é frescura. O trigo, por exemplo, tem frutanos, carboidratos fermentáveis que causam gases e inchaço em pessoas com intestino sensível.
Um estudo publicado na revista Gastroenterology, em 2018, avaliou pessoas que diziam ter sensibilidade ao glúten sem serem celíacas. Os sintomas pioraram mais com os frutanos do que com o glúten em si. Ou seja: em muitos casos, o problema não é o glúten, e sim outro componente do trigo.
O maior erro que eu vejo é achar que um alimento ou uma bebida explica todos os sintomas. Quando a pessoa corta o glúten e "desincha", muitas vezes o que mudou foi o resto: saiu pão, biscoito, pizza e doce, e entrou mais comida de verdade. O efeito veio do padrão, e não da ausência de glúten.
O mesmo acontece com a lactose. Ao cortar o leite, muita gente também reduz cafés com açúcar, sorvetes e doces, e atribui a melhora só à lactose.
Não por si só. Produtos sem glúten e sem lactose industrializados costumam ter tanta caloria, açúcar e gordura quanto os tradicionais, às vezes mais. E cortar laticínios sem substituir bem pode reduzir cálcio e proteína da dieta.
Além disso, cortes desnecessários deixam a alimentação mais cara, mais difícil de manter e mais cheia de regras, o que costuma aumentar a ansiedade em relação à comida.

• Mascarar o diagnóstico de doença celíaca.
• Reduzir a ingestão de fibras, cálcio, vitamina B12 e outros nutrientes.
• Prejudicar a variedade da microbiota intestinal.
• Gastar mais com produtos especiais sem necessidade.
• Criar medo de comer e dificultar a vida social.
1. Diagnóstico de doença celíaca ou alergia: retirada total e definitiva, com orientação.
2. Intolerância à lactose: reduzir até o seu limite, usar produtos sem lactose. Iogurtes e queijos curados costumam ser mais bem tolerados.
3. Sintomas sem diagnóstico: um teste de retirada com tempo definido e reintrodução, para descobrir se aquele alimento realmente faz diferença para você.
Se não existe diagnóstico, mas você suspeita que um alimento faz mal, o teste precisa ser organizado para trazer uma resposta clara:
• Antes de tudo, converse com o médico para descartar doença celíaca, se houver suspeita.
• Retire um alimento de cada vez, e não vários ao mesmo tempo.
• Defina um período, em geral de duas a quatro semanas.
• Anote os sintomas antes, durante e depois.
• Reintroduza o alimento e observe se os sintomas voltam.
Se nada mudar com a retirada, provavelmente aquele alimento não era o problema, e ele pode voltar para o prato.
Não. A maioria das pessoas com intolerância à lactose tolera pequenas quantidades, principalmente quando o leite é consumido junto com outros alimentos. Iogurtes naturais e queijos curados têm menos lactose e costumam ser mais bem tolerados. Os produtos sem lactose são uma boa alternativa e mantêm o cálcio e a proteína do leite.
Quem tem doença autoimune costuma ouvir que precisa cortar glúten e lactose. A doença celíaca é mais frequente em pessoas com outras doenças autoimunes, como Hashimoto e diabetes tipo 1, por isso deve ser investigada nesses casos. Mas, sem diagnóstico de doença celíaca, as evidências sobre a retirada do glúten ainda são limitadas e os resultados variam muito de pessoa para pessoa.
O caminho mais seguro é investigar primeiro e, se fizer sentido, testar a retirada de forma organizada, com tempo definido e acompanhamento. Assim você não abre mão de alimentos sem necessidade e consegue saber, de verdade, o que funciona para o seu corpo.
Quando a retirada é necessária, a qualidade da substituição faz toda a diferença:
• Troque o pão por tapioca, cuscuz de milho, batata-doce, macaxeira ou pães sem glúten com boa quantidade de fibras.
• Garanta o cálcio com leite e iogurte sem lactose, queijos curados, sardinha, folhas verde-escuras e, se necessário, bebidas vegetais enriquecidas.
• Prefira comida de verdade a produtos industrializados sem glúten, que costumam ser ricos em amido refinado e açúcar.
• Fique atenta à contaminação cruzada, se houver diagnóstico de doença celíaca.
Para quem tem doença celíaca, a atenção precisa ser total. O glúten aparece em alimentos óbvios, como pães, massas e bolos, mas também em molhos prontos, embutidos, cervejas, temperos industrializados e produtos com contaminação cruzada. A leitura de rótulos e o cuidado com utensílios na cozinha fazem parte do tratamento.
Estratégia é saber por que, quanto e por quanto tempo. Se você quer descobrir o que o seu corpo tolera sem cortar tudo no escuro, agende sua consulta. Atendo online e presencialmente em Boa Vista/RR.
Pode desinchar, mas muitas vezes por outros motivos, como a redução de ultraprocessados e de frutanos do trigo. Vale investigar antes de cortar.
Não. O leite sem lactose tem calorias muito parecidas com o leite comum. A diferença é que a lactose já vem quebrada, o que facilita a digestão para quem tem intolerância.
Muitas pessoas toleram bem queijos curados, como parmesão, e iogurtes naturais, que têm menos lactose.
Não é o ideal. O glúten precisa estar presente na alimentação para que o exame tenha resultado confiável. Converse com o médico antes de retirar.
Sim. O glúten está presente no trigo, no centeio e na cevada, independentemente de a farinha ser branca ou integral. A aveia pode ser contaminada, por isso quem tem doença celíaca deve usar aveia certificada sem glúten, com orientação.
Pode, mas a intolerância primária costuma aparecer mais tarde. Em crianças pequenas, sintomas com o leite podem ter outras causas, como alergia à proteína do leite, e precisam ser avaliados pelo pediatra.
Só existe indicação clara de retirar o glúten quando há doença celíaca associada. A lactose pode ser reduzida quando há intolerância. Fora isso, a decisão é individual.
1. Rubio-Tapia A, Hill ID, Semrad C, et al. American College of Gastroenterology Guidelines Update: Diagnosis and Management of Celiac Disease. Am J Gastroenterol. 2023;118(1):59-76.
2. Skodje GI, Sarna VK, Minelle IH, et al. Fructan, Rather Than Gluten, Induces Symptoms in Patients With Self-Reported Non-Celiac Gluten Sensitivity. Gastroenterology. 2018;154(3):529-539.
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